A Soul Cycles, marca catarinense consolidada no mercado de bicicletas de alta performance, implementou em 2024 uma iniciativa que marca inflexão significativa no panorama do ciclismo de base brasileiro: o Projeto Soul Jovem.
A empreitada representa investimento estratégico na revelação de talentos nacionais, com alocação orçamentária inicial próxima a um milhão de reais, direcionada exclusivamente para estruturar uma ponte sólida entre jovens ciclistas brasileiros e o circuito internacional de treinamento e competição.
A concepção do projeto origina-se de reflexão sobre a trajetória anterior da Soul Cycles no ciclismo profissional.
Após vivenciar experiência frustrante com patrocínio de equipe em nível elite, o CEO André Souto Maior e sua equipe direcionaram investimentos para a base, entendendo que a construção de ídolos do esporte no país exige desenvolvimento sistematizado de atletas em suas fases formativas. A estratégia contrastava com a prática convencional de simplesmente patrocinar equipes profissionais estabelecidas.
O Projeto Soul Jovem estrutura-se em duas frentes complementares. A primeira concentra-se na formação europeia, especificamente na Bélgica, destino escolhido deliberadamente por sua tradição como berço internacional do ciclismo profissional e centro de treinamento de classe mundial.
A segunda vertente, inaugurada em 2025, estabelece a equipe Soul Cycles Santos em nível nacional, funcionando como espaço de preparação e seleção paralelo.
Na dimensão europeia, o projeto selecionou inicialmente dez ciclistas, sendo cinco do gênero feminino e cinco do masculino, todos na faixa etária entre 18 e 25 anos.
O processo seletivo envolveu rigorosa peneira: de mais de 500 inscrições iniciais, reduziram-se às dez seleções finais após training camp em São Carlos reunindo aproximadamente 40 ciclistas e estrutura de 60 profissionais entre treinadores, médicos e pessoal de apoio.
Os dez atletas selecionados para a primeira temporada europeia foram Amanda Kunkel, Ana Carolina Ribeiro, Ana Paula Finco, Carol Ferreira, Luiz Fernando, Luiza Souza, Matheus Franciscon, Vitor Manzo, Vitor Pompeu e William Cardeli.
Esses ciclistas iniciaram imersão em estrutura internacional sob coordenação do experiente Claudio Diegues, diretor esportivo que já havia desenvolvido trabalho similar com equipe feminina que competiu na Bélgica com licença UCI.
A estrutura de suporte coloca ênfase em profissionalização integral da experiência. Os atletas recebem planejamento de treinamento personalizado, acompanhamento médico 24 horas, acesso a infraestrutura de primeira ordem e exposição a dinâmica real do ciclismo profissional em ambiente competitivo de elite.
Diferencia-se substancialmente da vivência de um amador que realiza treinamentos recreativos com amigos, demandando comprometimento integral com objetivos de alto rendimento.
O financiamento distribui-se entre múltiplos atores. A Soul Cycles assume despesas principais do projeto, enquanto a Prefeitura de Santos contribui com remuneração dos atletas e sustentação de parte significativa do pessoal profissional envolvido.
Patrocinadores adicionais da estrutura santista complementam os recursos necessários. Essa composição de parcerias público-privadas reduz dependência de fonte única de investimento.
Na dimensão nacional, o programa consolidou-se com a formação da equipe Soul Cycles Santos em 2025. Cinco atletas que não integraram os dez selecionados para a Bélgica compõem o elenco nacional, criando dinâmica de mobilização contínua: aqueles que permanecem no Brasil enfrentam incentivo competitivo de ascensão internacional, evitando acomodação dos integrantes europeus.
A equipe nacional compete no circuito brasileiro, acumulando experiência em ambiente competitivo estruturado.
Adicionalmente, a Soul Cycles desenvolve atividade paralela no segmento de mountain bike através de projeto liderado por Valmor Hausmann, atleta veterano da modalidade e funcionário da empresa.
Nessa vertente, identificou-se promessa de relevância no jovem Vinicius Howe, campeão brasileiro e pan-americano. A experiência inicial de exposição internacional de Howe na Europa, ainda que breve e desafiadora pessoalmente, forneceu validação para expansão sistemática do programa.
As insccrições para edição de 2026 abriram-se em outubro de 2025, contemplando especificamente a categoria Júnior, sinalizando intenção de descentralizar formação para idades progressivamente menores e ampliar base de recrutamento.
Esse movimento estratégico revela sustentabilidade projetada para iniciativa além de seu ciclo inicial, transformando-a de experimento isolado em programa permanente.
O projeto carrega significação que transcende fronteiras entre empresa e esporte. Funciona como demonstração viável de que investimento privado, quando estruturado com inteligência estratégica e visão de longo prazo, pode desencadear transformação material no desenvolvimento de modalidades que historicamente careceram de apoio sistemático.
No contexto brasileiro, onde funding para ciclismo de base concentra-se frequentemente em iniciativas governamentais ou fragmentárias, a Soul Jovem oferece modelo alternativo de mobilização de recursos.
As próximas temporadas definirão escopo real de impacto da iniciativa. Observar-se-á se os atletas que começam suas jornadas internacionais conseguem consolidar carreiras profissionais sustentáveis, conquistar êxitos em provas relevantes e retornar ao Brasil como ídolos capazes de inspirar nova geração de ciclistas.
Igualmente importante será acompanhar se outras empresas do setor absorvem lição da Soul Cycles e replicam modelos similares, multiplicando oportunidades disponíveis para talentos brasileiros. O Projeto Soul Jovem, portanto, representa não apenas aposta em atletas específicos, mas investimento na própria infraestrutura futura do ciclismo nacional.

