A centésima edição da Corrida Internacional de São Silvestre marcou presença inesperada de militares entre os melhores corredores do ano.
Na manhã de 31 de dezembro de 2025, enquanto atletas de elite do mundo inteiro disputavam as ruas da capital paulista, dois sargentos do Exército Brasileiro alcançaram o terceiro lugar nas categorias elite, consolidando a força das Forças Armadas no esporte de alto rendimento nacional.
Na prova feminina, a 3ª Sargento Núbia de Oliveira conquistou a terceira colocação com o tempo de 52 minutos e 42 segundos. A baiana de 23 anos, natural de Campo Formoso, repetiu o desempenho de 2024 e reafirmou sua posição como a melhor atleta brasileira em disputa nos 15 quilômetros de percurso.
Igualmente impressionante foi o resultado do 3º Sargento Fábio Jesus Correia na prova masculina, que também conquistou o terceiro lugar com 45 minutos e 6 segundos, confirmando-se como o melhor brasileiro em sua categoria.youtube
Ambos os militares integram o Programa de Atletas de Alto Rendimento (PAAR) do Ministério da Defesa, criado em 2008 para fortalecer a participação de atletas brasileiros em competições de nível internacional.
Pela primeira vez em 16 anos, desde que Marilson Gomes dos Santos venceu a prova masculina em 2010, um brasileiro chegou novamente ao pódio de ouro da São Silvestre no masculino. No feminino, a conquista brasileira no pódio não ocorria desde 2006, quando Lucélia Peres levantou o troféu.
Núbia de Oliveira carrega em seu currículo títulos de bicampeã do Troféu Brasil nos 10 mil metros e campeã sul-americana da mesma distância. Melhorou seu tempo anterior em 42 segundos em relação à edição de 2024, demonstrando evolução técnica e física em preparação progressiva.
A atleta ainda abriga ambição declarada: em entrevista coletiva após a prova, afirmou pretender vencer a São Silvestre. "Meu sonho é me tornar campeã da São Silvestre e eu vou lutar por isso até o fim. Tenho 23 anos de idade. Acredito que tenho ainda um longo caminho para percorrer".youtube
Fábio Jesus, natural de Monte Santo, Bahia, com 26 anos de idade, também protagonizou trajetória de dedicação notável. Treina com Elvis Conceição de Santana desde 2019, período em que iniciou sua ascensão no atletismo de rua.
Em 2022, havia conquistado o quarto lugar na mesma prova; em 2024, a sexta colocação. Sua terceira posição em 2025 marca seu melhor resultado histórico na São Silvestre. Fábio é bicampeão sul-americano de meia-maratona em corrida de rua, demonstrando consistência em provas de média distância.youtube
A vitória nas categorias elite não coube aos brasileiros. O etíope Muse Gizachew conquistou o ouro com tempo de 44 minutos e 28 segundos, decidindo a prova com sprint emocionante nos últimos 50 metros, ultrapassando o queniano Jonathan Kipkoech nos segundos finais.
Na prova feminina, a tanzaniana Sisilia Ginoka Panga encerrou uma sequência de oito vitórias consecutivas do Quênia, vencendo com 51 minutos e 8 segundos, tempo que estabeleceu domínio confortável sobre a segunda colocada, a queniana Cynthia Chemweno, que marcou 52 minutos e 31 segundos.
A edição centenária da São Silvestre reuniu números sem precedentes na história da prova. Ao atingir 55 mil inscritos de 44 países diferentes, a corrida bateu recorde de participação.
Mais relevante ainda foi o índice de participação feminina: 47% do total de inscritos, equivalente a cerca de 25,8 mil corredoras, representando a maior presença feminina jamais registrada. A data marca ainda 50 anos desde que mulheres foram autorizadas a participar da São Silvestre em 1975.
O PAAR, programa responsável por estruturar a participação de Núbia e Fábio, incorpora 165 atletas de diversas modalidades no Exército Brasileiro, incluindo atletismo, boxe, natação, judô, pentatlo moderno, esgrima e tiro.
O programa oferece aos militares soldo, assistência médica, odontológica, fisioterápica, alimentação, alojamento e acesso às instalações esportivas das Forças Armadas. Complementa, ainda, participações em competições nacionais e internacionais como estratégia de desenvolvimento técnico contínuo.
Histórico contrastante marca a centésima edição. Criada em 1925 pelo jornalista Cásper Líbero, inspirado em corridas noturnas que presenciou na França, a prova partiu de apenas 48 corredores que percorreram aproximadamente 6,5 quilômetros.
A corrida sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e apenas uma exceção interrompeu sua sequência: o adiamento de 2020 em razão da pandemia de covid-19, sendo posteriormente realizada em julho de 2021. Alfredo Gomes conquistou o primeiro título em 1925, enquanto o recorde histórico pertence ao queniano Paul Tergat, com cinco vitórias.
Após a prova, Fábio Jesus expressou frustração com o panorama do atletismo nacional. Treinou nas ruas de São Paulo por falta de acesso às pistas oficiais da cidade, não realizou treinamento em altitude, condições que atletas africanos frequentemente desfrutam. "É muito treino e muita dedicação para a gente chegar aqui.
Brigar com os africanos não é fácil. A gente treina demais, se dedica demais. Que pena que o Brasil não incentiva o atletismo, que é um esporte tão importante". A reflexão aponta lacuna estrutural no apoio ao atletismo brasileiro que persiste apesar de conquistas pontuais.
Núbia de Oliveira interpretou sua colocação como impulso para outras mulheres. "Esse resultado, tenho certeza que inspira e impulsiona mais mulheres a participar do esporte. Tenho certeza que sou referência para muitas mulheres.
Fico muito feliz em estar no pódio e representar a força da mulher, da mulher nordestina". A baiana também ressaltou o significado histórico do crescimento feminino: "Essa participação era proibida para nós
A presença de dois sargentos do Exército no pódio reafirma a relevância do PAAR como instrumento de desenvolvimento esportivo brasileiro. Ambos nascidos na Bahia, representam região historicamente menos favorecida em infraestrutura esportiva, transformando obstáculos em motivação.
Seu desempenho na centésima edição não apenas marca dado histórico para as Forças Armadas, mas simboliza persistência de atletas que competem contra desvantagens estruturais enfrentadas pelo esporte de rua nacional.

