O investidor da SAF do Atlético-MG, Rafael Menin, fez um balanço transparente sobre a situação financeira do clube durante apresentação de Pedro Daniel, novo CEO da entidade, ocorrida em 10 de dezembro.
O discurso revelou um panorama complexo, marcado por desafios persistentes, mas também por perspectivas de alento para os próximos meses.
Menin descreveu a trajetória enfrentada pela instituição desde 2019, destacando como eventos externos impactaram profundamente o planejamento inicial. A pandemia de Covid-19, que eclodir logo após o clube iniciar o ambicioso projeto da Arena MRV, transformou a equação financeira e adiou soluções que pareciam iminentes.
Segundo o acionista, "chegamos no fim de 2019 com o desafio gigantesco de fazer a Arena MRV. Logo depois, veio a Covid, que tornou tudo ainda mais difícil".
O balanço dos seis anos de gestão sob comando do grupo reconheceu avanços legitimados, porém admitiu erros cometidos ao longo do processo.
"Ao longo desses seis anos à frente do clube, procuramos fazer melhor. Muitas coisas boas foram feitas, erros também foram cometidos, e aprendizados vieram", confessou Menin.
A transformação do Atlético em Sociedade Anônima do Futebol representou um ponto de inflexão relevante nas finanças do clube. A SAF, que foi constituída para acelerar a reestruturação financeira, proporcionou um "respiro" à instituição, mas não encerrou o ciclo de dificuldades. Conforme apontado pelo investidor, "a SAF deu um respiro para o clube, mas não foi um movimento definitivo".
A dívida, que em algum momento ultrapassou os R$ 2 bilhões, foi reduzida para próximo de R$ 1 bilhão com a transformação em SAF. No entanto, as contas voltaram a deteriorar-se, chegando atualmente a mais de R$ 1,4 bilhão, evidenciando que as medidas tomadas até agora mostraram-se insuficientes.
Menin enfatizou que a situação financeira permanece delicada apesar da melhoria relativa ocorrida com a SAF. "Ainda temos um balanço e uma situação financeira delicados, apesar da melhora após a SAF", ressaltou.
O reconhecimento dessa fragilidade, longe de representar resignação, impulsionou o investidor a revelar trabalhos incansáveis em busca de novas soluções financeiras. "Estamos trabalhando incansavelmente para fazer um novo movimento", afirmou.
A família Menin demonstrou comprometimento ao longo de todo o processo. Rubens Menin, pai de Rafael, esteve envolvido nas decisões desde antes mesmo da constituição da SAF. "A família sempre esteve envolvida.
Antes mesmo da SAF, colocamos uma quantia relevante no clube, sem correção, buscando construir um legado", explicou Rafael. Com a transformação estrutural, os aaportes foram ampliados para acelerar processos estratégicos.
Um obstáculo significativo no caminho foi removido recentemente. A cláusula de diluição da associação, que representava um empecilho para novas movimentações financeiras, foi avançada.
"Avançamos com a cláusula de diluição da associação, que era um empecilho", revelou Menin, sinalizando desbloqueio de negociações que estavam estagnadas.
A perspectiva para o futuro próximo carrega esperança medida. O investidor projeta um novo movimento financeiro durante o primeiro trimestre de 2026, embora reconheça que esse aporte não será solução definitiva para todos os problemas acumulados.
"Esperamos, quem sabe no primeiro trimestre do ano que vem, talvez um pouco mais para frente, dar um novo passo para que o Atlético fique com o balanço mais limpo. Não significa resolver todos os problemas, mas pode deixar a situação mais tranquila", finalizou Menin.
Pedro Daniel, recém-apresentado como CEO da SAF, complementou essa discussão ao esclarecer a destinação do novo aporte. Segundo o executivo, qualquer investimento será exclusivamente direcionado ao pagamento de dívidas, não podendo ser utilizado para contratações de atletas. "Quando a gente pensa em aporte é em qual dívida vamos atacar no momento...
o aporte, ele vai ser especificamente destinado para dívida", explicou Daniel. Ele acrescentou que esse alinhamento interno representa uma estratégia de longo prazo: "Seria até contraditório precisar de um aporte para pagar dívida e sair contratando atleta... A partir do momento que ajustamos isso, vamos ter mais dinheiro para investir no futebol a médio prazo".
A entrada de Daniel à frente da instituição marca uma mudança administrativa relevante.
O novo CEO traz experiência em governança financeira de clubes, tendo atuado como consultor técnico da CBF na implementação do Sistema Fair Play Financeiro no Brasil, além de participar das discussões que resultaram na Lei das SAFs. Sua atuação substitui Bruno Muzzi, que esteve à frente da SAF desde 2022.
O contexto macroeconômico não favorece soluções rápidas. A taxa de juros brasileira, atualmente em patamares elevados, amplifica o peso da dívida e desvia recursos que poderiam ser investidos diretamente em melhorias competitivas do futebol.
Pedro Daniel alertou para essa realidade: "moramos em um país em que a taxa de juros é de 15%, então a dívida pega muito forte quando pensamos em despesa financeira. E ela tira dinheiro do futebol".
O desempenho da equipe em 2025 também pressionou as contas. Menin classificou o ano como "abaixo do esperado" diante do planejamento inicial.
O Atlético conquistou o Campeonato Mineiro pela sexta vez consecutiva, porém foi eliminado nas quartas de final da Copa do Brasil e acabou na vice-campeonato na Copa Sul-Americana. No Campeonato Brasileiro, a equipe brigou nas últimas posições da tabela, correndo risco de rebaixamento parte da temporada.
Apesar dos reveses competitivos e da complexidade financeira, o discurso dos dirigentes manteve tom de perseverança.
Menin reafirmou a convicção de que o clube evoluirá gradualmente: "Temos a convicção que estamos entregando um Galo um pouco melhor, mais estruturado todos os anos". O caminho, reconhecidamente, não é linear, mas a continuidade do trabalho permanece como horizonte traçado.
A situação do Atlético representa um estudo de caso sobre os desafios de reestruturação em grandes instituições de futebol. Embora a SAF tenha funcionado como instrumento importante de respiro financeiro, a dívida herdada de períodos anteriores continua sendo fardo pesado.
Os próximos meses de 2026 serão decisivos para avaliar se o novo aporte sinalizadoefetivamente contribuirá para colocar o clube em trajetória mais sustentável ou se novas medidas estruturais serão necessárias.

