Quem é o idoso de 92 anos que correu 44 km na Maratona de Curitiba?

Quem é o idoso de 92 anos que correu 44 km na Maratona de Curitiba?

Na semana da prova em Curitiba, portais e redes sociais passaram a circular a pergunta: “Quem é o idoso de 92 anos que correu 44 km na maratona de Curitiba?”, em alusão ao esforço registrado em vídeo e ao relógio do atleta, enquanto o próprio texto jornalístico enfatiza que ele completou os 42 km oficiais da maratona da capital paranaense.

O contraste entre a idade avançada e a resistência demonstrada transformou o corredor em símbolo de longevidade ativa e disciplina esportiva.

A chegada que parou a Maratona de Curitiba

A prova que projetou novamente o nome de Francisco foi a Santander Maratona de Curitiba 2025, uma das principais corridas de rua do país, que reuniu cerca de 16,2 mil atletas, divididos entre os percursos de 42 km, 21 km, 10 km e 5 km.

Entre campeões de elite e amadores anônimos, a cena mais comovente da manhã foi reservada justamente ao último colocado na classificação geral: um senhor magro, de boné, passos curtos e firmes, cruzando a linha de chegada sob aplausos intensos.

Francisco concluiu o percurso escoltado de perto por uma médica, com uma ambulância na retaguarda e batedores da Polícia Militar abrindo caminho até o pórtico final, enquanto o público formava um corredor de incentivo e emoção. A organização registrou o momento, que foi publicado no perfil oficial da maratona nas redes sociais.

Na legenda, o texto destacava: “Aos 92 anos, Seu @franciscomaratonista completou 42 km mais uma vez e lembrou a todos que idade nunca foi limite pra quem carrega um sonho no peito. O último a cruzar… e o primeiro a provar que persistir é vencer”.

O vídeo rapidamente se espalhou por contas de corrida, páginas de boas notícias e perfis pessoais, acumulando milhares de visualizações, mensagens de incentivo e comentários que classificavam o goiano como “lenda”, “inspiração” e “orgulho”.

Em um cenário em que boa parte do debate digital gira em torno de desempenho, pace e recordes, o foco se deslocou para a persistência e o significado simbólico de completar uma maratona aos 92 anos.

De Petrolina ao Brasil: a vida antes das maratonas

Por trás do idoso que corre 42 km está uma trajetória marcada por trabalho pesado e sonho adiado. Francisco Lima nasceu em Petrolina, no sertão pernambucano, e cresceu na roça.

Nos relatos que costuma dar à imprensa, ele conta que a paixão pela corrida começou ainda criança, quando corria pelo campo com uma lata pendurada no pescoço para espantar passarinhos da lavoura do pai.

O desejo de “virar atleta” foi barrado pela própria realidade familiar. Ainda jovem, saiu de casa aos 17 anos e se mudou para São Paulo, onde trabalhou, casou-se e criou 13 filhos, sempre colocando as necessidades da família à frente dos sonhos esportivos.

Em outro momento da vida, já mais velho, trabalhou como coletor de recicláveis, experiência que ressurge em uma das frases que ajudaram a consolidar a sua imagem pública: “Parei de correr atrás de lixo e fui correr atrás da minha vida”.

Há cerca de duas décadas, Francisco mudou-se para Goiânia. Foi na capital goiana que decidiu finalmente realizar o antigo projeto de ser corredor.

O que começou como desejo pessoal tornou-se um estilo de vida que, hoje, estrutura sua rotina, seus deslocamentos pelo país e sua presença constante em provas de rua.youtube

A largada tardia nas corridas de rua

A grande virada ocorreu aos 75 anos. Francisco relata que sua primeira participação em prova oficial foi em 11 de maio de 2008, em uma corrida de rua em Curitiba.

Sem treinamento estruturado, alinhou-se ao pelotão e completou 10 km em cerca de 50 minutos, tempo que costuma citar com orgulho em entrevistas posteriores.youtube

Desde então, não abandonou mais as competições. Em pouco menos de duas décadas, acumulou um volume impressionante de provas. Relatos recentes apontam que já são mais de 150 maratonas concluídas, em um percurso esportivo que se espalha por todos os estados brasileiros e inclui provas internacionais em Nova York, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Em algumas entrevistas, o próprio maratonista afirma já ter superado a marca de 170 provas completas e estar em contagem regressiva para a meta de 200 maratonas.youtube

Entre os principais resultados, Francisco já subiu ao pódio na tradicional São Silvestre e alcançou o bicampeonato na Maratona de São Paulo em sua categoria etária, consolidando o apelido de “maratonista mais velho em atividade no Brasil”.

O rótulo, reforçado por organizadores e veículos de imprensa, hoje faz parte da construção pública da sua imagem como referência de longevidade no esporte amador.

Rotina de treinos, alimentação e disciplina

A longevidade competitiva de Francisco não se sustenta apenas em frases motivacionais.

Em entrevistas recentes à TV, o nonagenário descreve uma rotina de treinos que seria exigente mesmo para atletas muito mais jovens: acordar por volta das 4h da manhã para, antes das 5h, já estar correndo, seja na rua, seja em pistas de atletismo.youtube

A preparação não segue um plano de periodização sofisticado, mas é marcada por constância.

Colegas de treino relatam que ele costuma ser um dos primeiros a chegar e um dos últimos a ir embora, mantendo trotes longos, repetições e simulações de prova com uma disposição que surpreende quem o acompanha de perto.youtube

Em relação à alimentação, Francisco costuma citar as frutas como base da dieta, defendendo refeições leves como fator de bem-estar e desempenho nas corridas.

Para além dos hábitos pessoais, ele afirma contar com acompanhamento de profissionais de saúde em diferentes cidades, a quem recorre sempre que sente câimbras ou algum desconforto muscular mais intenso, algo compreensível diante do volume de quilômetros percorridos por ano.

Questionado sobre o “segredo” da longevidade, costuma resumir em três pilares: vontade de vencer, coragem e disposição para treinar, complementados por fé e disciplina diária.

Em seus discursos, reforça a crença de que a idade cronológica não é, por si só, limite para perseguir metas, desde que o corpo seja cuidado e a mente se mantenha ativa.youtube

A filosofia de vida por trás do “Seu Francisco”

Francisco Lima construiu, ao longo dos anos, um discurso simples, mas consistente, sobre envelhecimento, propósito e superação.

Uma de suas frases mais repetidas resume a visão que transmite a quem o procura nas chegadas de prova: “Não tem idade pra correr atrás do que se quer. A nossa idade é Deus quem comanda”.

Essa combinação de religiosidade, humildade e autoexigência percorre as entrevistas e interações registradas em vídeos.

Em geral, o maratonista incentiva pessoas de diferentes faixas etárias a “descruzar os braços”, “levantar do sofá” e fazer uso dos próprios recursos físicos — “braços para abraçar, cabeça para pensar e pernas para carregar o corpo para onde queremos ir”, como já afirmou em reportagem de TV.

Nas redes sociais, Francisco responde a comentários, agradece mensagens e reforça a ideia de que cada prova concluída é combustível para seguir adiante.

Em um dos conteúdos recentes, após a Maratona de Curitiba, afirmou que cada mensagem recebida funciona como estímulo para continuar correndo, associando o apoio virtual à motivação para os próximos desafios.

O impacto simbólico da maratona de Curitiba

A participação de Francisco na Maratona de Curitiba teve um efeito que extrapolou as estatísticas da prova.

Enquanto atletas de elite disputavam o recorde do percurso — o campeão Ederson Vilela registrou 2h15min13s, novo melhor tempo da competição —, o nonagenário corria em outra dimensão: a da resistência ao tempo e às expectativas sociais sobre o que alguém de 92 anos “deveria” estar fazendo.

A imagem da chegada, com aplausos generalizados, ambulância a postos e câmera fixa no relógio de pulso sendo pausado logo após cruzar o tapete de cronometragem, condensou essa inversão de lógica.

Em vez de se perguntar “em quanto tempo ele fez os 42 km”, parte do público enalteceu simplesmente o fato de ele ter completado a distância, relativizando a obsessão por performance que domina parte da cultura das corridas de rua.

Não por acaso, muitos comentários destacaram mais a lucidez, a fala firme e a alegria com que Francisco interagia com quem o abordava do que propriamente o ritmo de prova.

Em um ambiente saturado por métricas, planilhas e metas de tempo, o nonagenário goiano surgiu como lembrete de que o significado de uma maratona vai além do cronômetro.

Representatividade e envelhecimento ativo

O caso de Francisco Lima se encaixa em um fenômeno mais amplo: o crescimento da participação de pessoas com mais de 60 anos em corridas de rua e eventos esportivos de resistência no Brasil.

Ao se apresentar como “maratonista mais velho em atividade no Brasil”, ele ocupa um espaço simbólico poderoso para essa geração, mostrando que a presença de idosos em provas de longa distância não é exceção folclórica, mas tendência em expansão.

A forma como a organização da Maratona de Curitiba conduziu sua chegada — com apoio médico próximo, escolta e espaço para terminar a prova com segurança — também ajuda a ilustrar um amadurecimento do olhar sobre atletas veteranos: não se trata de tratá-los como “mascotes”, mas de garantir condições adequadas para que possam competir dentro de suas possibilidades físicas.

Além disso, a repercussão do vídeo em páginas de “boas notícias” e perfis motivacionais reforça uma narrativa mais ampla sobre envelhecimento ativo, em que o idoso é visto como protagonista da própria trajetória, capaz de estabelecer metas, viajar sozinho para competir e manter projetos de médio e longo prazo — como a ambição de alcançar 200 maratonas concluídas.youtube

Planos e horizonte de um nonagenário em movimento

Mesmo após a conquista em Curitiba, Francisco não fala em aposentadoria.

Em entrevistas recentes, mencionou que a maratona completada no Paraná fazia parte de uma contagem contínua em direção à meta de 200 provas, com novas corridas já planejadas em outras cidades, como Marília, no interior de São Paulo.youtube

Com 92 anos, o corredor segue viajando de ônibus pelo país para participar de provas de rua, acumulando medalhas, histórias e seguidores. Há quem o considere um “influenciador da corrida”, ainda que seu discurso permaneça distante do marketing típico das redes sociais.

A imagem de um senhor que acorda antes do amanhecer, calça o tênis e percorre quilômetros todos os dias, mesmo após décadas de trabalho árduo, mantém o apelo de autenticidade que tanto atrai o público.youtube

O idoso que correu a maratona de Curitiba, portanto, não é apenas um caso isolado de superação. É o ponto mais visível de uma trajetória longa, construída à margem dos holofotes e agora ampliada por câmeras de celular e plataformas digitais.

Ao cruzar a linha de chegada sob aplausos, Francisco Lima não celebrou só mais uma medalha: reafirmou, a cada passo, a ideia de que o tempo cronológico não esgota a capacidade de sonhar, treinar e se colocar em movimento.

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Gustavo Ferreira

Gustavo Ferreira é o editor-chefe e um historiador do esporte com uma paixão por narrativas épicas. Sua experiência é dedicada a cobrir as Notícias e Destaques diários, explorar a rica História do Esporte e desvendar Fatos, Curiosidades e os recordes mais inusitados.