Aos 52 anos, gerente de vendas fica no top 5 de torneio de CrossFit

Aos 52 anos, gerente de vendas fica no top 5 de torneio de CrossFit

Criado em 2009 e frequentemente tratado como o “Campeonato Brasileiro” de crossfit, o TCB (Torneio CrossFit Brasil) reuniu, em 2025, mais de 350 atletas de 22 estados e do Distrito Federal em quatro dias de provas no litoral paulista, com arenas montadas em ginásios, ruas e áreas abertas de Guarujá.

Em meio à elite nacional e às categorias teen e master, Alejandra estreou em competições individuais e, logo na primeira participação, terminou entre as cinco melhores do país na Master 50+, em um pelotão que incluía atletas veteranas com anos de experiência em grandes campeonatos.

Top-5 no TCB e a consolidação da categoria 50+

A trajetória no TCB começou antes de chegar ao palco principal. Como todo atleta das categorias de idade, Alejandra passou por provas online, que precisaram ser gravadas e enviadas para validação, e por uma seletiva presencial em São José, Santa Catarina.

Nessa etapa intermediária, garantiu o terceiro lugar na Master 50+, carimbando o passaporte para a grande final em Guarujá.

No TCB Finals, a disputa durou quatro dias e percorreu diferentes ambientes da cidade — ginásios, rua, estruturas poliesportivas e praias — testando força, resistência, natação, corrida e versatilidade dos competidores.

Na categoria Master 50+ Feminino, Alejandra chegou a liderar o ranking e se manteve entre as duas primeiras colocadas ao longo dos dois primeiros dias de competição. O desgaste acumulado, porém, cobrou preço na reta final: no último dia, o rendimento caiu e o resultado final foi o quinto lugar geral, em uma chave vencida por Ro Morais, bicampeã da categoria.

O desempenho, ainda assim, foi considerado surpreendente até pelas adversárias mais experientes, que competem em torneios de alto nível desde meados da década passada.

A presença de uma estreante de 52 anos pressionando o pelotão da frente e brigando pela liderança reforçou o recado que o próprio TCB vem transmitindo com a inclusão e expansão das categorias master: idade avançada no RG não impede performance relevante no leaderboard.

Rotina dupla: expediente integral e três horas de treino

Fora das arenas, Alejandra mantém uma rotina que espelha a realidade de grande parte dos atletas amadores de alto rendimento: trabalha em período integral como gerente de vendas, das 8h às 17h30, e reserva as noites para treinar no box.

São cerca de cinco sessões semanais, com aproximadamente três horas de duração cada, descansando apenas às quartas-feiras e aos domingos.

Para sustentar esse ritmo, a logística doméstica envolve toda a família.

O marido e a filha Letícia, de 23 anos, estudante de Odontologia, ajudam a organizar a rotina da casa e da alimentação, permitindo que a agenda de treinos se encaixe no fim do dia, sem abrir mão de sono adequado e planejamento mínimo nutricional.

Na parte técnica, a preparação não é genérica. Após o interesse inicial em competir, a atleta passou a integrar um grupo reduzido de seis pessoas dentro do box, todos com foco em performance, seguindo planilhas específicas e sob supervisão de treinador.

A estrutura, comum em boxes que formam atletas para seletivas nacionais, inclui monitoramento de cargas, ciclos de treino voltados para provas específicas e adaptação de estímulos conforme calendário competitivo.

Do basquete ao crossfit: mudança de modalidade aos 47 anos

Antes de descobrir o crossfit, Alejandra já havia experimentado outras modalidades. Ao longo da vida adulta, praticou basquete, corrida e musculação. A transição para o crossfit ocorreu por curiosidade, pouco depois da pandemia, quando um box próximo de casa lançou uma promoção.

A proposta de treinos variados e em grupo chamou atenção e, a partir dali, a prática deixou de ser um teste pontual para se tornar parte fixa da rotina.

O que mais pesou para a permanência na modalidade não foi apenas o ganho físico, mas o formato das sessões: treinos coletivos, constantemente variados, com combinação de movimentos de levantamento de peso, ginástica, corrida e saltos, em que a mesma aula trabalha diferentes capacidades físicas.

Em oposição à musculação tradicional — mais individualizada, silenciosa e repetitiva — a dinâmica do crossfit, com mudanças diárias de treino e estímulo coletivo, acabou se tornando o principal fator de engajamento, segundo relato da própria atleta.

Crossfit master em ascensão no Brasil e no mundo

O caso de uma gerente de vendas de 52 anos ocupando top-5 em um torneio nacional não é um ponto fora da curva isolado. A própria estrutura da temporada oficial do crossfit já evidencia espaço crescente para os masters.

O livro de regras da temporada 2025 dos CrossFit Games prevê divisões específicas para faixas 50-54, 55-59, 60-64, 65-69 e 70+, com 30 vagas para homens e mulheres nas categorias de 50 a 59 anos, reforçando que a competição por idade é parte estruturante do esporte, e não um apêndice.

Nos últimos anos, a presença brasileira nessas divisões também se intensificou. Em 2024, 43 atletas do país — entre masters e teens — se classificaram para os CrossFit Games, com destaque para nomes como Luciane Macias e Ro Morais entre as mulheres 50+, além de representantes em praticamente todas as faixas de idade master.

Na temporada seguinte, o número de brasileiros qualificados nos grupos teens e masters chegou a 39, sendo 17 homens e 22 mulheres, consolidando o país como um dos que mais exportam competidores para essa faixa etária no cenário internacional.

No TCB 2025, os extremos de idade ajudam a dimensionar a diversidade do campo de atletas. Entre os participantes estavam adolescentes de 14 e 15 anos e masters acima dos 60, como Lasara Magnani, que, além de competir no TCB, voltou a representar o Brasil nos Games na categoria 60-64.

O recorte mostra que, em um único torneio, adolescentes em fase escolar e profissionais em fim de carreira executam provas semelhantes em ambientes compartilhados, com ajustes apenas de carga, volume e complexidade técnica.

Idade cronológica e idade de performance

Do ponto de vista fisiológico, não há dúvida de que o avanço da idade impõe limitações objetivas: redução gradual de massa muscular, perda de densidade óssea, maior tempo de recuperação e maior incidência de lesões são fatores bem documentados na literatura esportiva.

Entretanto, o caso dos masters do crossfit indica que a curva de queda de performance pode ser retardada — e, em alguns casos, parcialmente revertida — com estímulos adequados de força, mobilidade e condicionamento cardiorrespiratório.

A rotina de Alejandra ilustra esse fenômeno: aos 52 anos, relata sentir-se em melhor forma do que na juventude, com mais disposição para o trabalho e para tarefas do dia a dia.

Não se trata de negar o envelhecimento, mas de demonstrar como a combinação de treino estruturado, constância e ajustes na alimentação e no sono pode redefinir o patamar funcional de pessoas acima dos 50 anos.

Nesse contexto, o papel dos boxes e treinadores é central. A filosofia de “treino para todos”, frequentemente associada ao crossfit, só se sustenta na prática quando há real capacidade de adaptação.

Em um mesmo WOD (treino do dia), um atleta master pode substituir movimentos complexos, como saltos em caixa alta ou inversões em barra, por variações de menor impacto, mantendo o estímulo metabólico e de força, sem assumir riscos desnecessários. Essa lógica de escalonamento é o que permite que a modalidade seja, ao mesmo tempo, base de preparação para atletas de elite e ponto de partida para iniciantes em faixas etárias mais avançadas.

Inspiração dentro e fora do box

Dentro do box em que treina, a gerente de vendas de 52 anos passou a ocupar um lugar simbólico que vai além do ranking. Companheiros de treino relatam que desejam chegar à mesma idade com capacidade física semelhante e utilizam a história dela como referência para manter a disciplina diária.

Após o TCB, a visibilidade ampliou esse alcance: mensagens de desconhecidos, que souberam da trajetória e se disseram motivados a iniciar ou retomar a prática, tornaram-se frequentes.

O impacto, porém, não é apenas externo.

A atleta relata que, ao longo do processo, houve uma espécie de “virada de chave” pessoal: depois de anos priorizando a família e o trabalho, passou a direcionar mais atenção à própria saúde física e emocional, encontrando no esporte um ponto de equilíbrio e uma forma de reconexão com a própria imagem corporal.

Ao defender que o crossfit é “para todo mundo” e que não existe idade certa para começar, Alejandra insiste em um ponto que a própria evolução da modalidade parece confirmar: com acompanhamento qualificado e progressão adequada, pessoas mais velhas podem ingressar, evoluir e, em alguns casos, chegar ao pódio em competições de alto nível.

Em uma arena dominada por números — cargas, tempos, repetições —, a presença de uma gerente de vendas de 52 anos entre as melhores do país ajuda a redefinir o que se entende por “estar no auge”. E sugere que, no crossfit, esse auge pode ser menos uma questão de data de nascimento e mais uma questão de constância e contexto certo.

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Rafael Lima

Rafael Lima é o nosso analista de performance e combate. Sua expertise abrange Basquete (NBA), MMA e Lutas, além de Treinamento e Saúde Esportiva. Ele também é a referência para Reviews e Análises de Equipamentos que otimizam o desempenho do atleta.