A exposição "Ichi-go Ichi-e: um momento, um encontro" marca um diálogo inédito entre a arte contemporânea e as artes marciais tradicionais japonesas, reunindo obras que incorporam cortes reais de kenjutsu e iaijutsu diretamente na tela.
Inaugurada em 27 de novembro no Museu da Imagem e do Som de Goiás (MIS), a mostra permanecerá em cartaz até 22 de janeiro de 2026, com entrada gratuita.
A proposta artística emerge da colaboração entre o artista visual Rafael Abdala, responsável pela direção artística e produção, e Bruno Alcantara, conhecido como Hogosha, praticante graduado do estilo Aizu Muso Ryu – Misawa Hā.
A pesquisa e desenvolvimento técnico contou com a coordenação de Kenjiro Sensei, grão-mestre do estilo, que orientou os encontros filosóficos e práticos entre os artistas e mestres das artes marciais.
A raiz conceitual da exposição repousa no princípio japonês "ichi-go ichi-e", expressão que traduz a ideia de que cada encontro é singular e precioso. Originada na cerimônia do chá, essa filosofia enfatiza a importância de estar plenamente presente, reconhecendo que cada experiência é irrepetível.
Aplicado ao trabalho criativo, esse conceito reflete-se na impossibilidade de corrigir um corte realizado com a espada sobre a tela — cada gesto é único e definitivo.
A pesquisa dos artistas inspirou-se em referências significativas da história da arte moderna. Entre elas, destaca-se a série "Concetto Spaziale" de Lucio Fontana, artista italiano que revolucionou a noção de pintura ao incorporar a dimensão do espaço físico.
Fontana questionava as convenções tradicionais do quadro, penetrando no espaço atrás do plano pictórico através de cortes precisos que, segundo suas palavras, ofereciam "uma impressão de calma espacial, rigor cósmico e serenidade infinita". Da mesma forma, a pintura caligráfica de Fabienne Verdier, a action painting de Kazuo Shiraga, o abstracionismo de Manabu Mabe e a obra de Tomie Ohtake informaram a poética visual do projeto.
Tomie Ohtake, nascida em Kyoto e radicada no Brasil desde 1936, construiu uma linguagem artística que explorava a geometria, luz e movimento através da abstração lírica.
Sua obra, marcada pela importância de espaços vazios e pela ausência de ornamento, dialogava com princípios estéticos japoneses enquanto se desenvolvia no contexto brasileiro. A presença dessa referência na pesquisa de Abdala e Alcantara evidencia a continuidade de um diálogo entre tradições orientais e criação contemporânea.
As técnicas centenárias incorporadas ao trabalho surgem de práticas ancestrais dos guerreiros samurais. O kenjutsu, significando "técnica da espada", fundamenta-se em filosofia de vida transmitida de mestre a discípulo ao longo de gerações, não se restringindo apenas ao aspecto técnico do combate.
O iaijutsu, por sua vez, representa a arte do saque da espada, desenvolvida durante o período Edo e praticada atualmente como meio de conhecer a cultura samurai e encontrar um caminho pessoal através dessa disciplina.
A produção das obras resulta de um processo onde cada ação é irreversível. Conforme documentado, ao lançar um corte sobre a tela, não havia volta, não havia possibilidade de correção — apenas o deixar ser e fruir, estar ali naquele momento único em que a tela e a espada se encontravam.
Essa metodologia estabelece ressonância com a filosofia zen e com os conceitos artísticos de mestres modernos que compreendiam o gesto como elemento central da criação.
A expografia apresenta uma estrutura visual ampla, pensada como um jardim zen, onde cada elemento é considerado em seu estado puro e observado no tempo presente.
Inspirada pelos conceitos de arte zen, as obras exploram o abstracionismo através de imagens que podem evocar tanto gestos controlados quanto momentos de acaso controlado, reverenciando os materiais e os cortes como premissas centrais.
A mostra também contempla atividades complementares que ampliam a experiência artística para o público. Oficinas criativas ocorrerão nos dias 10 e 12 de dezembro, no Centro Cultural Octo Marques, com atividades de "Criação colaborativa com práticas marciais e pintura/caligrafia", abertas a todas as idades com vagas limitadas a 20 participantes por data.
No dia 17 de dezembro, será realizada uma mediação no MIS com a presença de artistas, curadoria e mestres do Aizu Muso Ryu, reunindo até 80 participantes sem necessidade de inscrição prévia.
O Museu da Imagem e do Som, localizado no Centro Cultural Marietta Telles Machado na Praça Cívica de Goiânia, funciona de segunda a sexta-feira das 9h às 16h e aos sábados das 9h às 13h.
A exposição conta com apoio financeiro do Governo de Goiás através do Programa Goyazes, operacionalizado pela Secretaria de Estado da Cultura.

