O primeiro papel foi emitido em 31 de dezembro de 2025 e tem liquidação prevista para meados de janeiro de 2026.
A estrutura chama atenção por tentar alinhar o desempenho do instrumento ao referencial de retorno de investidores que contabilizam ganhos em BTC, em vez de moeda fiduciária, combinando características de dívida conversível com ajustes de preço vinculados à variação do bitcoin.
O que a Connecting Excellence está emitindo — e por que isso foge do padrão
Títulos conversíveis são instrumentos híbridos: começam como dívida, mas podem ser convertidos em ações do emissor mediante condições pré-definidas. A Connecting Excellence adotou um desenho de “zero-coupon” (juros de 0%), com vencimento de 12 meses, denominado em bitcoin.
Na prática, o investidor não recebe cupom periódico; o retorno potencial é capturado via (i) conversão em ações, caso o preço/condições favoreçam, ou (ii) resgate em BTC no vencimento, caso não haja conversão.
O diferencial apontado pela companhia é o mecanismo chamado de “BTC price differentiator”, descrito como um ajuste proporcional do preço de conversão conforme a variação do bitcoin entre a data de emissão e a data de conversão. Em um conversível tradicional, a referência é quase sempre estática em moeda fiduciária (com ajustes societários usuais).
Aqui, a Connecting Excellence tenta fazer o preço de conversão “acompanhar” o BTC — um ponto relevante porque, se o investidor mede performance em bitcoin, um conversível comum pode gerar distorções (por exemplo, a ação subir em GBP, mas perder “valor relativo” contra o BTC).
Termos centrais do XCE BTC Bond
A empresa informou que os detentores podem converter “a qualquer momento” em ações ordinárias, com preço de conversão definido inicialmente em 130% do preço de fechamento das ações na data de emissão, com gatilhos adicionais para conversão forçada (“soft call”) em cenários de forte valorização.
Se o título não for convertido, o resgate ocorre automaticamente em bitcoin no vencimento, descontados custos fixos de 2% do ciclo de vida.
Resumo dos principais termos (conforme divulgações públicas):
| Item | Condição divulgada |
|---|---|
| Tipo de instrumento | Título conversível zero-coupon (0% de juros), denominado em BTC |
| Prazo | 12 meses |
| Primeira emissão | 10 BTC; emissão em 31/12/2025; liquidação prevista para meados de jan/2026 |
| Conversão (investidor) | Conversão a qualquer tempo; preço de conversão a 130% do fechamento na emissão, ajustado por variação do BTC (“BTC price differentiator”) |
| Conversão (emissor) | Conversão compulsória se VWAP superar 120% do preço de conversão por 10 pregões (“soft call”) |
| “Refix” (opção do emissor) | Possibilidade de reduzir o preço de conversão se a ação cair abaixo do preço de conversão, condicionada a um critério de “mNAV multiple” > 1,0 |
| Liquidação no vencimento | Resgate automático em BTC, menos 2% de custos fixos, se não convertido |
| Uso dos recursos | 100% destinado à estratégia de tesouraria em bitcoin |
A mensagem estratégica por trás da modelagem é explícita: a Connecting Excellence afirma buscar captações “acretivas” em BTC por ação e desenhar o conversível para só converter quando isso for positivo para acionistas em termos de bitcoin por ação, ao mesmo tempo em que oferece aos detentores uma alternativa entre exposição acionária e retorno em BTC no vencimento.
Contexto: IPO recente e a construção de uma “tesouraria em bitcoin”
O programa de conversíveis foi anunciado poucas semanas após a estreia da companhia na Aquis Growth Market. A Connecting Excellence iniciou negociações em 11 de dezembro de 2025 após um IPO que levantou cerca de £3,3 milhões e atribuiu à empresa valor de mercado aproximado de £8 milhões na admissão, segundo comunicado repercutido pelo Investing.com.
A companhia combina o negócio operacional de recrutamento executivo (com destaque para a marca Spencer Riley) com uma política de alocação de caixa corporativo em bitcoin.
Na sequência do IPO, a empresa continuou comprando BTC. Em atualização divulgada ao mercado, informou compras adicionais de 16,583060460 BTC (até 2 de janeiro de 2026) por cerca de £1,076 milhão, elevando o total para 41,359742280 BTC.
No mesmo documento, divulgou preço médio de compra e o indicador “BTC Yield” como KPI para acompanhar a variação da razão entre BTC total e ações (fully diluted) ao longo do tempo.
Essa combinação — negócio operacional “tradicional” + tesouraria em bitcoin + instrumentos de captação voltados ao público cripto — vem sendo apresentada como uma tentativa de criar um “flywheel” (ciclo de retroalimentação): geração de caixa do recrutamento e do crescimento corporativo alimentaria compras de BTC, enquanto a narrativa de bitcoin treasury ajudaria na atração de investidores e talentos, com remuneração variável via incentivos em ações.
O papel do Adam Back e o sinal para o mercado
A participação de Adam Back (frequentemente associado ao ecossistema do Bitcoin por ser CEO da Blockstream e citado como uma das referências do setor) é tratada como elemento de credibilidade institucional no anúncio.
Mais importante do que o nome em si, o recado é que existe demanda, ao menos em nichos específicos, por estruturas que permitam a investidores “bitcoin-native” alocar BTC em instrumentos corporativos sem necessariamente sair do denominador BTC.
Esse tipo de demanda tende a crescer em momentos em que (i) investidores institucionais passam a ter maior conforto operacional com custódia e compliance, e (ii) emissores buscam acessar novas bases de capital, sobretudo quando a emissão em moeda fiduciária enfrenta custo de capital elevado ou limitações de apetite.
O que significa “denominar” um conversível em bitcoin na prática
Denominar em BTC significa que o principal (e, aqui, também o resgate final, se não houver conversão) é referenciado diretamente em bitcoin. Isso muda a natureza do risco para as duas pontas:
Para o investidor, o instrumento passa a ter um “piso” em BTC (menos custos fixos), o que reduz o risco de desempenho ruim medido em bitcoin — mas não elimina risco de crédito do emissor nem risco de liquidez do papel.
Para a empresa, a obrigação é em BTC, o que pode ser mais “natural” se a tesouraria também está em BTC, mas aumenta a relevância de controles de risco, governança de custódia e capacidade de honrar o resgate em cenário adverso (por exemplo, queda do preço da ação que desincentive conversão).
O mecanismo de ajuste do preço de conversão (“BTC price differentiator”) funciona como uma tentativa de reduzir a assimetria típica que surge quando a empresa tem caixa em BTC, mas o instrumento é precificado em GBP: em ciclos de alta forte do bitcoin, um conversível comum poderia gerar conversão com diluição considerada “barata” em termos de BTC.
Ajustar o preço de conversão ao BTC tende a elevar a barreira para conversão quando o bitcoin sobe, e a reduzi-la quando o bitcoin cai, mantendo a relação econômica mais estável para quem pensa em BTC.
Alertas de risco: volatilidade, regulação e proteção ao investidor
Os comunicados corporativos da Connecting Excellence reforçam que bitcoin é um ativo de alto risco, com volatilidade elevada e mercado amplamente não regulado no Reino Unido, observando que a empresa não é autorizada nem regulada pela Financial Conduct Authority (FCA) e que investidores não contam com mecanismos de proteção como o Financial Ombudsman Service ou o Financial Services Compensation Scheme para perdas relacionadas a bitcoin.
Também ressalta que investir na empresa não equivale a investir diretamente em bitcoin, embora a companhia reconheça exposição material ao ativo por manter reservas em BTC.
No mesmo contexto regulatório, a companhia cita o Property (Digital Assets etc) Act 2025, que passou a reconhecer formalmente ativos digitais como propriedade pessoal no Reino Unido, reduzindo incertezas jurídicas sobre a natureza patrimonial de criptoativos.
Ainda assim, esse reconhecimento não transforma bitcoin em ativo “seguro” nem elimina riscos operacionais, como falhas tecnológicas, ataques cibernéticos, fraude e risco de contraparte — pontos também citados na comunicação ao mercado.
Leitura editorial: um experimento de “crédito corporativo em BTC” com implicações mais amplas
A emissão do XCE BTC Bond pode ser lida como mais um passo na convergência entre finanças corporativas e criptoeconomia, agora não apenas no lado do ativo (tesouraria em BTC), mas também no passivo (dívida denominada em BTC).
Ao combinar conversibilidade com resgate em bitcoin, a Connecting Excellence busca ampliar o leque de investidores potenciais — especialmente aqueles que preferem não “vender BTC para investir” e que, ao mesmo tempo, querem opcionalidade de upside em ações.
Se o formato ganhar tração, a consequência natural seria o surgimento de uma microcurva de “crédito corporativo em BTC” (ainda embrionária), com preços refletindo risco de crédito do emissor, estrutura de conversão, liquidez e governança de custódia — além, claro, da percepção de sustentabilidade da política de tesouraria em bitcoin.
Por ora, trata-se de um instrumento de nicho, ligado a um emissor recém-listado e com capitalização reduzida, mas que ajuda a testar, em condições reais de mercado, até onde vai o apetite por estruturas híbridas referenciadas diretamente em BTC.

