A disparidade entre a recepção internacional a Neymar e seu status na Seleção Brasileira tornou-se evidente nos últimos meses.
Enquanto jornais estrangeiros enaltecem consistentemente as performances do craque, a comissão técnica brasileira mantém uma postura cautelosa, condicionando seu retorno à Copa do Mundo de 2026 a critérios rigorosos de forma física.
O cenário ganhou contornos mais claros após o hat-trick do camisa 10 contra o Juventude, em 3 de dezembro, quando o Santos venceu por 3 a 0. Mídia internacional reagiu com entusiasmo desproporcionalmente maior ao demonstrado pela Seleção Brasileira.
O jornal espanhol "As" descreveu a atuação como magistral, enquanto o "Mundo Deportivo" ressaltou sua recusa em desistir apesar das lesões recorrentes. O argentino "Olé" qualificou o desempenho como heróico, e o "Marca" elogiou seu alto nível de jogo, reconhecendo simultaneamente a pressão que Neymar enfrenta para conquistar espaço na equipe de Carlo Ancelotti.
O técnico italiano, porém, tem mantido uma linha consistente: Neymar será convocado apenas se estiver em condições físicas ideais. Em outubro, Ancelotti declarou que o talento do camisa 10 é indiscutível, mas reafirmou a necessidade de estar completamente recuperado.
"O Neymar pode jogar em seu mais alto nível nesta equipe sem nenhum problema quando está em boas condições físicas", disse na época. Meses depois, diante da insistência em perguntas sobre o assunto, o treinador mostrou irritação: "Estamos em dezembro, a Copa é em junho, vou escolher a equipe em maio. Se Neymar merecer estar, se estiver bem, melhor que outro, ele vai jogar a Copa do Mundo e ponto".
A questão das lesões permanece central nessa equação. Desde seu retorno ao Santos, no início de 2025, Neymar enfrentou quatro problemas físicos: edema na coxa esquerda em março, lesão na mesma coxa em abril, lesão grau 2 na coxa direita em setembro e lesão no menisco do joelho esquerdo em novembro.
O problema no menisco exigiu investigação médica cuidadosa, levantando debates sobre possível artroscopia e seu impacto no calendário de competições.
As lesões não apenas prejudicam sua continuidade no Santos, como alimentam incerteza sobre sua capacidade de chegar à Copa em condições adequadas. O fato de Neymar não atuar pela Seleção há mais de dois anos amplia essa preocupação.
Sua última partida pela Canarinha ocorreu em outubro de 2023, antes de sofrer grave lesão nos ligamentos do joelho que interrompeu sua sequência internacional.
A posição da comissão técnica brasileira reflete uma mudança de prioridades. Sob comando de Ancelotti, a Seleção tem privilegiado estabilidade defensiva e adaptabilidade, escalando frequentemente atacantes como Vinicius Jr., Rodrygo, Matheus Cunha e Estêvão em formações que não necessariamente contemplam espaço para Neymar.
Na goleada por 5 a 0 sobre a Coreia do Sul, quatro atacantes foram utilizados entre os titulares, demonstrando variedade ofensiva sem depender do camisa 10.
Dirigentes e ex-treinadores reconhecem o impasse. Dunga, em entrevista exclusiva oferecida em dezembro, foi equilibrado em sua análise: "Se tem que ser do momento, não vamos nos contradizer.
Quando chegar o momento da convocação, o Ancelotti vai ver os jogadores que estão em melhores condições". O ex-tetracampeão também ponderou que o Brasil "não pode abrir mão do Neymar" se ele estiver em forma física adequada, mas reforçou que essa responsabilidade recai sobre o próprio atleta.
A Seleção, segundo informações de bastidores coletadas em outubro, não o considera entre as prioridades para o Mundial. Sua convocação dependerá fundamentalmente de dois fatores: a condição física ao primeiro semestre de 2026 e o clube onde estará atuando naquele período.
Esses critérios, embora aparentemente justos do ponto de vista técnico, destoam da unanimidade internacional sobre sua qualidade individual.
O contraste evidencia uma tensão estrutural no futebol contemporâneo: a capacidade de resolver partidas através do talento individual versus a necessidade de garantir continuidade de desempenho.
Enquanto jornais globais enxergam em Neymar um jogador cujo brilho transcende limitações físicas momentâneas, a Seleção Brasileira adota uma postura mais pragmática, exigindo comprovação de prontidão antes de apostar suas esperanças em um jogador que não participa de competições oficiais da Canarinha há mais de dois anos.

