Abel Ferreira: lições da queda na Libertadores para o Palmeiras crescer

Abel Ferreira: lições da queda na Libertadores para o Palmeiras crescer

A eliminação do Palmeiras para o Botafogo nas oitavas de final da Conmebol Libertadores 2024 marcou um ponto crítico na trajetória de Abel Ferreira no comando do clube paulista.

O empate em 2 a 2 no Allianz Parque, insuficiente diante da derrota inicial por 2 a 1 no Nilton Santos, encerrou a quinta participação consecutiva do técnico português na competição continental, cristalizando sua pior campanha desde a chegada em 2020.

Diferentemente das campanhas anteriores, quando o Palmeiras avançava sistematicamente entre os quatro melhores times ou conquistava títulos, esta edição trouxe a queda precoce numa etapa inusitada.

Em 2020 e 2021, o clube foi bicampeão, enquanto em 2022 e 2023 chegou às semifinais. O recuo às oitavas de final ressalta um cenário que não se repetiria desde 2017, quando o Verdão caiu para o Barcelona do Equador.

A forma como os gols foram sofridos oferece subsídios para reflexão estratégica. No Nilton Santos, o Botafogo explorou incisivamente a profundidade da defesa do Palmeiras, particularmente com Luiz Henrique gerando superioridade sobre Murilo.

A segunda partida, embora o Verdão dominasse as ações iniciais, revelou a letalidade contraposicionada dos cariocas. Igor Jesus e Jefferson Savarino aproveitaram eficiência nos momentos em que a equipe de Abel perdia a organização defensiva.

O próprio treinador diagnosticou a questão central: a falta de eficácia dos atacantes palmeirenses contrastada com o aproveitamento adversário.

O Botafogo converteu poucas oportunidades em gols, enquanto o Palmeiras teve múltiplas chances criadas especialmente no segundo tempo do confronto no Allianz Parque, sem traduzir essas criações em resultado.

Merecimento tático permeou a análise dos técnicos e comentaristas. O Botafogo, embora com potencial criativo menor em alguns momentos, aproveitou as oscilações defensivas do Palmeiras com extrema inteligência.

A formação escolhida por Abel Ferreira, com três zagueiros, visava amplitude ofensiva, mas gerou vulnerabilidades nas transições.

A dimensão individual sobrepôs-se ao coletivo em momentos decisivos. Abel Ferreira atribuiu a maior responsabilidade aos erros pontuais dos jogadores, ressaltando que cortes falhados, má cobertura e falta de concentração marcaram os gols sofridos.

Essa conjunção de falhas isoladas rompeu a estrutura defensiva que o sistema de três zagueiros deveria preservar.

Outro aspecto distintivo foi a capacidade mental de manter consistência em mata-mata. O calendário exigente e os problemas físicos relatados antes da série contra Botafogo impactaram a disponibilidade de elenco, reduzindo alternativas para rotações ofensivas.

Abel mencionou especificamente a dificuldade de contar com o elenco completo apenas próximo às oitavas de final, comprometendo o ritmo necessário para competições de alto risco.

A pressão tática empregada pelo Botafogo no segundo tempo da volta perturbou o andamento do Palmeiras. Apesar da reação final com gols de Flaco López e Rony, a equipe não conseguiu manter a sequência necessária para uma virada completa.

O gol anulado de Gustavo Gómez, por toque de mão, incorporou também elementos de sorte desfavorável que marcaram a campanha.

Para campanhas futuras, a fragilidade em transições defensivas emerge como focal. O treinador português valoriza pressão alta e recuperação de bola no campo adversário, mas quando essa pressão falha ou é desorganizada, a defesa fica exposta.

O Botafogo atacou justamente em momentos em que o Palmeiras não conseguiu sufocar o primeiro toque dos cariocas.

A gestão emocional coletiva também constitui aprendizado relevante. O gol sofrido precocemente da volta desestabilizou o comportamento defensivo, sugerindo que perturbações psicológicas antecederam erros técnicos.

A equipe que havia se acostumado a remontadas enfrentou dificuldade em reconstituir padrões quando em desvantagem.

Igualmente significativo é reconhecer que campanhas de sucesso frequente geram expectativas e pressão cumulativa. Abel Ferreira virou bicampeão, manteve a equipe em semifinais, conquistou títulos brasileiros consecutivos.

A queda inesperada, portanto, não apenas interrompe trajetória vitoriosa, mas também expõe fragilidades estruturais que talvez estivessem encobertas por resultados positivos.

A experiência de 17 fases de mata-mata até então, com 14 vitórias e três derrotas, constitui histórico sólido apesar da eliminação prematura.

No entanto, o padrão das três derrotas—semifinal em 2022, semifinal em 2023, oitava em 2024—sugere evolução contrária no desempenho competitivo.

As lições extraídas perpassam pelo refinamento tático dos encaixes defensivos, pela calibragem da pressão alta para não deixar vulnerabilidades expostas, e pela manutenção mental coletiva quando os resultados iniciais são adversos.

O triunfo subsequente sobre a LDU nas oitavas em 2025, revertendo 3 a 0 com vitória de 4 a 0, evidencia capacidade de adaptação e resposta. Naquela ocasião, Abel modificou a formação, optando por três zagueiros para atacar com intensidade e deixou de lado preconceitos táticos, explorando agressividade estratégica em vez de retração defensiva.

A tempestade de agosto de 2024 ficou para trás no calendário.

As conclusões dela, contudo, continuam relevantes: eficiência não é apenas criação de chances, mas também conversão decisiva; defesa não é apenas estrutura, mas mental coletiva; e mata-mata não admite oscilações mesmo quando equipes possuem superioridade técnica registrada.

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Mariana Santos

Mariana Santos é especialista em análise tática e o mercado de transferências. Com profunda experiência em Futebol Nacional e Internacional, ela foca em dissecar as estratégias de jogo e o cenário financeiro do Mercado da Bola, trazendo análises aprofundadas sobre clubes e atletas.